Bem vindo ao site da FESMIG

E-mail:

atendimento@fesmig.com.br

Visite-nos:

Rua Rio de Janeiro 282 – 8ª andar, salas 806, 807, 808 e 809 | Edifício Gontijo – Centro | Belo Horizonte – MG CEP: 30160-040

Notícias

Carnaval – Bloco do Servidor de Juiz de Fora desfila nesta terça-feira, homenageando o sambista Mamão

Texto e fotos: Imprensa do SINSERPU-JF
Bloco do servidor JF 2017

O SINSERPU-JF bota o bloco na rua rendendo homenagem ao compositor Mamão. Bateria e foliões se concentrarão no Parque Halfeld, em frente à Câmara Municipal, nesta terça-feira (21 de fevereiro), a partir das 19h. O cordão dos servidores descerá o calçadão da Halfeld animado pelo samba enredo “Mamão, o poeta do samba”, de Lupércio da Empav e contará com a ilustre presença do homenageado. O samba já foi antecipado ao público no último dia 3, em evento no Bar do Gordo, no Bairro Mariano Procópio (foto)

Bloco do Servidor JF 2017 3

O Bloco do Servidor foi criado para proporcionar momento de descontração e alegria ao servidor e à população. Tem, ainda, como objetivo valorizar o carnaval de rua. Com letra e melodia do funcionário da Empav, Lupércio, o samba traz no refrão o hit de Mamão, “Tristeza pé no chão” imortalizado na voz de Clara Nunes.

Além de compositor e sambista tradicional de Juiz de Fora, Mamão trabalhou por muitos anos na Funalfa, sendo, portanto, um funcionário municipal. No ano passado, o Bloco do Servidor homenageou outro compositor e sambista, funcionário da Funalfa, Flavinho da Juventude.

Leia, a seguir, uma entrevista com o compositor Mamão, onde ele, que possui mais de 100 composições em seu currículo de sambista, lembrou sua trajetória. Contou como surgiu a inspiração de “Tristeza Pé no Chão”; como o samba ganhou a primeira faixa do disco de Clara Nunes; descreveu seu papo com o músico Criolo, que tem a primeira parte de uma música com a mesma melodia, entre outras boas histórias mais.

Bloco do Servidor JF 2017 4

Como uma música sua chegou às paradas de sucesso do país?

       A cidade promovia muitos festivais da canção na década de 70. Naquela época eu já compunha e tinha participado de outros eventos em Belo Horizonte. Então, em 1973, um grupo de amigos (como Sueli Costa e Rogério de Carvalho), me convidou para participar do evento naquele ano e resolvi me inscrever com “Tristeza pé no chão”. O festival de Juiz de Fora era famoso, vinham intérpretes de peso, então eu pensei na Clara Nunes e comentei com o coordenador do festival, Júlio Hungria, crítico de música do Jornal do Brasil. Ele levou a música para o Rio de Janeiro e botou para Clara Nunes ouvir em uma mesma sala onde estava um respeitado compositor na época, Sidnei Miller. Ela escutou e gostou pensando ser de Miller. Mesmo depois de esclarecida a autoria, ela achou que valia a pena defendê-la. Foi um sucesso total e a música tirou o primeiro lugar no festival.

Foi a Clara Nunes quem quis gravar “Tristeza pé no chão”?

      Não, depois do festival o produtor de Clara Nunes, Adelzon Alves, sugeriu que ela gravasse a música, mas, a princípio, ela relutou. Argumentava que a música deveria ficar em Juiz de Fora, no entanto, acabou aceitando que entrasse na reserva. Naquela época, havia censura e os produtores deixavam sempre algumas músicas na lista de possíveis substitutas. Durante as gravações, porém, “Tristeza pé no chão” ganhou interesse crescente dos produtores e, da reserva, passou a primeira faixa do disco.

Como foi o processo de criação dessa música?

      Como seria uma música para competir no festival, eu sabia que tinha que fazer o melhor, algo para impressionar os jurados, não deveria ser só para fazer sucesso. Isso, porque o nível das composições de festival era muito alto, como as músicas de Gonzaguinha e Vinícius de Moraes. Mas as ideias surgiram por acaso. Naquela época, o grande sambista Nelson Silva havia morrido e meu pai, presidente da Escola Feliz Lembrança procurava um substituto para escola à altura. A escola estava sem dinheiro e se dirigia para a avenida com uma ala descalça, quando meu amigo, o compositor Hegel Pontes perguntou como estava a agremiação e eu disse: “está uma tristeza danada, é o bloco tristeza pé no chão.” Aí, ele disse: isso dá samba! Então fiquei com o verso na cabeça. Mais tarde, estava em um boteco, quando Ricardo Leonel tocava um tamborim e eu falei: “dá um aperto aí no tamborim, mas tem que ser um aperto de saudade.” Gostei daquela frase e daí fui escrevendo os versos e a melodia.

E como foi experimentar o sucesso?

        Quando a Clara gravou “Tristeza pé no chão” foi demais, em todo lugar só se ouvia essa música. No programa do Chacrinha, ele perguntava aos calouros o que iam cantar e era sempre “Tristeza pé no chão”. Só que eu mesmo não ganhava nada com isso. Eu trabalhava na FEEA e andava num “miserê” desgraçado, chutando uma lata danada. Morava na vila, em Benfica, e um dia, saí de casa determinado a ir ao Rio de Janeiro para resolver isso. Eu tinha um amigo no Banco do Brasil, Luiz Afonso Pedreira, a quem pedi uma grana emprestada. Ele me emprestou 20 pratas . Comprei passagem e rachei para o Rio procurar o Adelzon. Cheguei por volta das 4 horas da tarde e fiquei até meia-noite no bairro da Glória, sem comer, esperando. Ele chegou, me apresentei, falei que era o Mamão e ele me levou para o seu programa de auditório, onde conheci o João Nogueira. Falei da minha dificuldade financeira e ele disse que para eu ir no Centro do Rio procurar o Wilson Miranda. Ele me disse: “diga que fui eu que mandei.” Para mim foi um balde de gelo, porque estava completamente sem dinheiro e tive que dormir no apartamento dele, numa quitinete. No dia seguinte, fui à Cinelândia, no escritório da EMI, me apresentei, entrei em uma sala enorme e o cara tinha uns trinta telefones na mesa e ele atendendo, aí ele meteu a mão na chave e disse: “agora você pode falar”. Contei que precisava de dinheiro, que tinha filho doente, que minha mulher estava grávida outra vez. Ele disse que não tinha como adiantar direito autoral. Disse que aquilo era uma multinacional e que eu tinha que esperar arrecadar. Argumentei então, que se não me arrumasse nada eu ficaria por lá mesmo. Ele mandou chamar um fulano da tesouraria, perguntou como estava a aceitação da música da Clara Nunes e ele disse que vendia feito água. Então ele mandou me pagar. Recebi o correspondente a R$ 5 mil, em cheque, fui receber no banco, tremendo feito uma vara.

O que você sentia quando ouvia sua música sendo tocada por todo lado?

       Tremia de emoção. Naquela mesma época, na rua Senador Dantas, na Cinelândia, tinha o Amarelinho e muitas lojas de eletrodoméstico. Não tinha muitas TVs como hoje nas portas das lojas, era mais aparelho de som e os vendedores ganhavam jabá para botarem discos. Então na Mesbla, com uma porrada de gente na frente, tocava repetidamente “Tristeza pé no chão”. E aí pensei: “se eu disser que essa música é minha vou levar uma vaia ou vou apanhar pra cacete. Ninguém nem vai acreditar.” E no íntimo estava numa alegria danada. Como havia recebido, sentei no restaurante e pedi um prato com pedaços de frango e como havia um menino esmolando em volta, botei ele do meu lado e pedi um prato para ele. O moleque comeu, eu ainda dei uma graninha pra ele e voltei para Juiz de Fora.

Você ganhou muito dinheiro com direito autoral dessa música?

       Ao longo da vida recebi mais de R$ 1 milhão de direito autoral por conta dessa música. Mas como foi pago aos poucos, não senti. Na verdade, recebo até hoje.

Com relação à música “Linha de frente”, de Criolo, você acha que houve plágio na primeira parte da melodia?

        Com certeza. Num certo dia ele me ligou dizendo que estava passando por ladrão. Aí falei: “eu que estou aqui passando como assaltado. Você que criou essa confusão aí”. E ele disse: “são coisas que acontecem sem a gente pensar”. E eu disse para ele tocar o seu barco, porque minha música é editada e toda essa responsabilidade fica por conta da editora. Falei para ele procurar a Sony (antiga EMI) que também é a gravadora dele para ver o que poderia ser feito com relação a isso.

Você também fez uma música para Juiz de Fora. O que te motivou?

         Recebi um telefonema da mãe do Rodrigo Barbosa, a Leila Barbosa. Ela me ligou dizendo que estava com uma professora do Colégio Santos Anjos, que tinha um coral de crianças e queria uma música sobre Juiz de Fora. Aí, eu respondi que não tinha uma música específica. Lembrei que cantava “Ai se eu fosse feliz” e botava o refrão “Juiz de Fora é assim”. Então ela passou o telefone para a professora, expliquei e ela disse: “como vou botar as crianças cantando “…beber e aquela mulher amar”? Pensei, então, que poderia compor uma música a partir do refrão. Me lembrei que o grande Manuel Bandeira fez um poema que dizia que Juiz de Fora era o primeiro sorriso de Minas. Peguei esse gancho e fiz os versos para chegar no refrão : “sei que jamais hei de esquecer esse sorriso/ pequeno céu o paraíso/ entre as montanhas de Minas Gerais./ Pelas manhãs,/ a brisa fria da colina/ cai sobre o rosto da menina/ a princesinha mais linda que há/ ainda te vejo criança/ radiante de esperança/ aos pés do morro do imperador/ é lindo te ver faceira/ a mais bela cidade mineira/ abençoada pelo Cristo Redentor/ ô Juiz de Fora…” A música fala do Cristo Redentor, e do primeiro sorriso.

Você nasceu em Juiz de Fora? Sua família é do samba?

         Nasci no Manoel Honório. Meu pai era sambista, na época não existia porta-bandeira, então ele sambava sozinho como porta- estandarte. Ele foi sambista, gostava de samba, presidente da escola Feliz Lembrança, chamava-se Manoel Fernandes de Aguiar, Nelinho. Já a minha mãe gostava de cantar, mas em casa, e incentivava meu pai, porém, também brigava com ele por causa do samba.

Quando você se aposentou?

            Me aposentei em 1996, há mais de 20 anos. Quando trabalhei na Funalfa não tirei um ano de férias, porque tinha um filho excepcional e tive que trabalhar muito para cuidar dele.